
Naquele casarão – que não passava de uma ilha
“Risquei o dedo na poeira da mobília”
E foi como abrir um sorriso no semblante da madeira
(Ou apenas remocei-lhe à flor da ruga?)
!
Desconfie sempre
Quando um feixe de luz
Banhar de claridade intensa
Uma treva imensa:
Deve ser obra da mulher, se deve!
Usando pele perfumada,
Cheia de afeto secreto
Cheia de maldade adestrada.
Previ naquele lance
Que assim que tivesse chance
Você me poria em cheio
Uma civilização partida ao meio…
Toda minha gana por grana
Toda minha fobia à lama
Foi modo de alcançar-te Estrela,
Foi invenção de merecê-la!
E agora, meu Território,
Leva-me até a paisagem de ponte
(onde somos meras silhuetas)
E convida-me ao casório?
Não faça!: é o meu grito.
Ou será que só imito
O silêncio do não dito,
Na realidade?
Sei lá eu!
Apenas sigo,
Contrito,
Contra a tempestade.
Mas aí me encho de conflito
E acho que posso
Virar um colosso
Para fazer o que é preciso!
Não por cobiça, mas por direito de nascença
E faço:
(mas só muito tempo depois…)
Entro no elegante bistrô
(maltrapilho e pilhado)
Deixo a boa gente constrangida
Tem madame sussurrando fingida
Um senhor me zombou aqui ao lado.
A maioria está me evitando
Mas, do fundo dos nossos olhos,
Os nossos olhos estão se olhando.
E eu te convido para dançar.
E parece que a gente flutua:
Entre as mesas pela cozinha pelo bar até a rua.
E na tempestade eu bebo o seu beijo na minha boca.
O tempo parece refeito.
Você, ofegante, rouca,
Arfa no meu peito,
Satisfeita, pouca.
. . .
Porém, ao encostar a face no meu regaço,
Ausculta uma dor que não há,
Porque está aos pedaços.
Assustada, não acha batidas nem volume acumulado.
Cheia de confusão, pergunta:
- O que é este solo rachado?
Respondo que é o meu coração,
- E está quebrado.
Entre aspas: frase extraída da música ‘Casarão’ de Eugênio Gomez.
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