a noite que restou

•janeiro 28, 2012 • Deixe um comentário

Quem vem lá?
Acendendo a noite
Com outra noite
Em forma de sorte
Secreta até pra mim?

Quem vem lá?
Um hospedeiro forte
Que vem sugar-me a morte
Que estava entranhada
Estancada em sangue
E com sua boca amorosa
Foi despejada
Virou mangue
E fez de tudo treva
Menos a mim
Um Sol
Livre de fim?

Serafim?
Qual será teu nome?

Mostra-se-me inteiro
Companheiro
Deixa esse breu seu
Esse mucoso pântano
Que é o futuro das previsões
Do que ainda não tem forja
Nem feito

Surja-se no plano da existência
E traz-me à plena consciência
Da alvorada.

Mas se preferir
Envolva-me no teu manto
De noite…

Que eu anoiteça
Dentro do seu dia
E desapareça
Da face do que sou.

A sua noite sendo tudo o que de mim restou.

Fique são

•julho 18, 2010 • 2 Comentários

Vida equivocada de acertos,
Rigor nenhum,
Objetos não-batizados;
Contemplo fonemas fossem gravuras
E nunca ouvi um livro.
Ignoro minha presença:
Por isso, só.
Enquanto isso:
Quanta sensação inútil!

Hoje, coleciono ficções
Feito alguém que, das obras de arte,
Guardasse apenas réplicas.

Comédia Digestiva

•junho 21, 2010 • 2 Comentários

À poesia
Depende o temperamento do leitor:

Em paragens pacíficas
Não servirão os poemas de guerra;

A um sertanejo machucado
Que bálsamos serão os poemas de levante,
De revolta!

A um leitor recém-nascido,
Engatinhando no mundo vil,
Bastam poesias que falem:

De água, montanha, agruras de sabiá,
De cores.

Poesia é misteriosa colheita !

Por isso não adianta levantar a voz
: ninguém tem acesso à poesia alheia.

Poesia barata

•fevereiro 14, 2010 • 1 Comentário

Essa poesia barata
é mulata
escrevi na vala
acendi uma vela
e cuspi nela.

A tinta pra letra
é a graxa preta
pútrida do esgoto.

Essa poesia fiz num desgosto
e tem gosto
de cachaça, de carcaça de jasmim,
ex-flores.

Nessa pátria
de tanta mamata
ergo essa poesia barata
que é meu corpo furioso
contagioso
minha carne exposta
decomposta
fundida e mal paga.

Cagada no chão
ressecada
virou casulo
virou borrão.

E o povo todo nulo
enojado
fulo
com azia
presencia
a aparição cascuda, abusada,
da barata
que é: a errata
da poesia defecada,
metamorfoseada.

Nessa pátria
de tanta mamata
ergo a poesia,
Barata,
que todo mundo pisa,
mas não mata.

Não se fala com os muros

•janeiro 15, 2010 • Deixe um comentário

Mergulho na Rua Jardim Botânico.
De um lado, murada em perspectiva
- cheia de pichações e grafites fantásticos.
Do outro, palmeiras imperiais e: semiocultas
-  a não ser que erga meu olhar,
nunca conhecerei seu cume rebentando nuvem.

* * *

Na verdade: mergulhei na Rua Jardim Botânico.
Agora estou diante de uma folha reciclada,
Lembrando sensações.

Me frustra que algumas palavras
Em nada lembrem um lugar.

* * *

À minha direita (naturalmente caminho saindo da Gávea)
Está a muralha surrealista:
Uma profusão de cores, favelas oníricas,
Semblantes de meninos com os olhos vazados.
Tenho a impressão de estar de fronte a uma mitologia moderna.

Aqueles desenhos parecem de corpos etéreos,
O corpo da cidade quando dorme,
O seu inconsciente coletivo derramado dos sonhos cariocas
Até se compactarem contra o muro.

Mas não se fala com os muros…

* * *

Artistas pobres geraram, através de grafites-desabafos,
A fotografia subjetiva do Rio.

* * *

Ao terminar essa dissertação, levantarei da mesa desse café, enterrarei esse papel ao pé da décima terceira palmeira (contando a partir da primeira fileira que, da rua, fica à direita de quem entra pelo portão principal) do Jardim Botânico e, feito num jogo de subterrâneos, deixarei ali (aqui) para que algum poeta o colha mais tarde, em tempos necessários.

* * *

E quando, à hora de sair,
Eu já tiver cruzado novamente o portão do Jardim Botânico,
Saiba que estarei (estive) pensando em você,
Leitor do ano que vem.
Leitor que ainda pode nascer.

Explicação do poema

•dezembro 12, 2009 • 2 Comentários

A palavra é para explicar a ideia de uma letra.
No carbono mora a possibilidade da palavra brancoo.
Casa não é asa só por causa de uma letra!
A ideia de uma palavra obriga-nos à construção do seu uso.
Não é palavra um punhado de ideia.
Não é ideia um punhado de palavra.

A palavra mora em uma casa
Onde a possibilidade de uma letra é asa:
Para revelar o que foi gerado, não no carbono,
Mas naquilo que está em branco.

Onde, em uma palavra possível, foi gerado o seu potencial de organismo?

Grandes Expectativas

•dezembro 11, 2009 • 1 Comentário

Naquele casarão – que não passava de uma ilha
“Risquei o dedo na poeira da mobília”
E foi como abrir um sorriso no semblante da madeira
(Ou apenas remocei-lhe à flor da ruga?)

!

Desconfie sempre
Quando um feixe de luz
Banhar de claridade intensa
Uma treva imensa:

Deve ser obra da mulher, se deve!
Usando pele perfumada,
Cheia de afeto secreto
Cheia de maldade adestrada.

Previ naquele lance
Que assim que tivesse chance
Você me poria em cheio
Uma civilização partida ao meio…

Toda minha gana por grana
Toda minha fobia à lama
Foi modo de alcançar-te Estrela,
Foi invenção de merecê-la!

E agora, meu Território,
Leva-me até a paisagem de ponte
(onde somos meras silhuetas)
E convida-me ao casório?

Não faça!: é o meu grito.
Ou será que só imito
O silêncio do não dito,
Na realidade?

Sei lá eu!
Apenas sigo,
Contrito,
Contra a tempestade.

Mas aí me encho de conflito
E acho que posso
Virar um colosso
Para fazer o que é preciso!
Não por cobiça, mas por direito de nascença
E faço:

(mas só muito tempo depois…)

Entro no elegante bistrô
(maltrapilho e pilhado)
Deixo a boa gente constrangida
Tem madame sussurrando fingida
Um senhor me zombou aqui ao lado.

A maioria está me evitando
Mas, do fundo dos nossos olhos,
Os nossos olhos estão se olhando.

E eu te convido para dançar.
E parece que a gente flutua:
Entre as mesas pela cozinha pelo bar até a rua.

E na tempestade eu bebo o seu beijo na minha boca.

O tempo parece refeito.
Você, ofegante, rouca,
Arfa no meu peito,
Satisfeita, pouca.

. . .

Porém, ao encostar a face no meu regaço,
Ausculta uma dor que não há,
Porque está aos pedaços.

Assustada, não acha batidas nem volume acumulado.

Cheia de confusão, pergunta:

- O que é este solo rachado?

Respondo que é o meu coração,

- E está quebrado.

Entre aspas: frase extraída da música ‘Casarão’ de Eugênio Gomez.

 
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