“tudo são trechos”

•julho 6, 2013 • Deixe um comentário

É bom que os corpos estejam assim
Cansados
A ponto de só saberem
De si.

Incapaz de criticar objetos
Meu corpo se rende
A repercussão dos sentidos:
Corpo que não me dá
Ouvidos.

Um corpo
Que não retenha nada
Que descanse ideias
E não interfira.

Corpo minério:
Amanheça, anoiteça
E que depois nada aconteça.

Corpo que não reivindique,
Que não se identifique.
Corpo pra doar.

Que o amor nele não dure: que doa
Que seja pra queimar.

Um corpo à margem:
Que não conheça amanhã
Sua ocupação hoje.

Corpo que ocupo
E que depois deixo:
Tudo são trechos.

O que sinto que sei
É o que sei do que sinto.
Fora isto, minto.

Corpo-enredo
Nunca me revele seu medo:

Só sei ser em segredo.

a noite que restou

•janeiro 28, 2012 • 2 Comentários

Quem vem lá?
Acendendo noite
Com outra noite
Em forma de sorte
Secreta até pra mim?

Quem vem lá?
Um hospedeiro forte
Que vem sugar-me a morte
Que estava entranhada
Estancada em sangue
E com sua boca amorosa
Foi despejada
Virou mangue
E fez de tudo treva
Menos a mim
Um Sol
Livre de fim?

Serafim?
Qual será teu nome?

Mostra-se-me inteiro
Companheiro
Deixa esse breu seu
Esse mucoso pântano
Que é o futuro das previsões
Do que ainda não tem forja
Nem feito

Surja-se no plano da existência
E traz-me à plena consciência
Da alvorada.

Mas se preferir
Envolva-me no seu manto
De noite…

Que eu anoiteça
Dentro do seu dia
E desapareça
Da face do que sou.

A sua noite sendo tudo o que de mim restou.

Fique são

•julho 18, 2010 • 2 Comentários

Vida equivocada de acertos,
Rigor nenhum,
Objetos não-batizados;
Contemplo fonemas fossem gravuras
E nunca ouvi um livro.
Ignoro minha presença:
Por isso, só.
Enquanto isso:
Quanta sensação inútil!

Hoje, coleciono ficções
Feito alguém que, das obras de arte,
Guardasse apenas as réplicas.

Comédia Digestiva

•junho 21, 2010 • 2 Comentários

À poesia
Depende o temperamento do leitor:

Em paragens pacíficas
Não servirão os poemas de guerra;

A um sertanejo machucado
Que bálsamos serão os poemas de levante,
De revolta!

A um leitor recém-nascido,
Engatinhando no mundo vil,
Bastam poesias que falem:

De água, montanha, agruras de sabiá,
De cores.

Poesia é misteriosa colheita !

Por isso não adianta levantar a voz
: ninguém tem acesso à poesia alheia.

Poesia barata

•fevereiro 14, 2010 • 1 Comentário

Essa poesia barata
é mulata
escrevi na vala
acendi uma vela
e cuspi nela.

A tinta pra letra
é a graxa preta
pútrida do esgoto.

Essa poesia fiz num desgosto
e tem gosto
de cachaça, de carcaça de jasmim,
ex-flores.

Nessa pátria
de tanta mamata
ergo essa poesia barata
que é meu corpo furioso
contagioso
minha carne exposta
decomposta
fundida e mal paga.

Cagada no chão
ressecada
virou casulo
virou borrão.

E o povo todo nulo
enojado
fulo
com azia
presencia
a aparição cascuda, abusada,
da barata
que é: a errata
da poesia defecada,
metamorfoseada.

Nessa pátria
de tanta mamata
ergo a poesia,
Barata,
que todo mundo pisa,
mas não mata.

Não se fala com os muros

•janeiro 15, 2010 • Deixe um comentário

Mergulho na Rua Jardim Botânico.
De um lado, murada em perspectiva
– cheia de pichações e grafites fantásticos.
Do outro, palmeiras imperiais e: semiocultas
–  a não ser que erga meu olhar,
nunca conhecerei seu cume rebentando nuvem.

* * *

Na verdade: mergulhei na Rua Jardim Botânico.
Agora estou diante de uma folha reciclada,
Lembrando sensações.

Me frustra que algumas palavras
Em nada lembrem um lugar.

* * *

À minha direita (naturalmente caminho saindo da Gávea)
Está a muralha surrealista:
Uma profusão de cores, favelas oníricas,
Semblantes de meninos com os olhos vazados.
Tenho a impressão de estar de fronte a uma mitologia moderna.

Aqueles desenhos parecem de corpos etéreos,
O corpo da cidade quando dorme,
O seu inconsciente coletivo derramado dos sonhos cariocas
Até se compactarem contra o muro.

Mas não se fala com os muros…

* * *

Artistas pobres geraram, através de grafites-desabafos,
A fotografia subjetiva do Rio.

* * *

Ao terminar essa dissertação, levantarei da mesa desse café, enterrarei esse papel ao pé da décima terceira palmeira (contando a partir da primeira fileira que, da rua, fica à direita de quem entra pelo portão principal) do Jardim Botânico e, feito num jogo de subterrâneos, deixarei ali (aqui) para que algum poeta o colha mais tarde, em tempos necessários.

* * *

E quando, à hora de sair,
Eu já tiver cruzado novamente o portão do Jardim Botânico,
Saiba que estarei (estive) pensando em você,
Leitor do ano que vem.
Leitor que ainda pode nascer.

Explicação do poema

•dezembro 12, 2009 • 2 Comentários

A palavra é para explicar a ideia de uma letra.
No carbono mora a possibilidade da palavra brancoo.
Casa não é asa só por causa de uma letra!
A ideia de uma palavra obriga-nos à construção do seu uso.
Não é palavra um punhado de ideia.
Não é ideia um punhado de palavra.

A palavra mora em uma casa
Onde a possibilidade de uma letra é asa:
Para revelar o que foi gerado, não no carbono,
Mas naquilo que está em branco.

Onde, em uma palavra possível, foi gerado o seu potencial de organismo?

 
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